::: quinta-feira, junho 12

BILLIE

A angústia era terrível. Pensava permanentemente no que havia deixado em Grun. Tinha pânico do que a poderia esperar. Lembrava-se dos amigos, perdidos, dos inimigos, ausentes, dos conhecidos, desaparecidos; de tudo aquilo a que estava habituada e tinha sumido. Como seria passar cinco anos fechada numa nave, com 49 desconhecidos? Não teria sido melhor ficar no planeta? O frio seria assim tão impossível de suportar? Um milagre? Um milagre capaz de salvar toda a população que havia resistido durante 3 longos anos. Três anos passados a enganar o frio, a contar os dias que faltavam para o fim do eclipse. A neve, sempre a neve, sempre mais alta, mais espessa, mais branca, mais… Mas sentia o corpo a alterar-se. Não conseguiria já suportar o frio? Então porquê partir? E os guardas? Porquê os guardas? Escondiam-lhes mais alguma coisa? Será que não tinha mesmo ficado ninguém para trás? Não conseguia descansar um pouco, parar de pensar. Terrível angústia!



Mudámos o visual por motivos que em breve compreenderão. Mais uma escolha sem a devida resposta.

::: terça-feira, junho 10

BRUMA

Se o canário da Bruma falasse e por aqui estivesse, talvez as insónias me dessem tréguas. Lembro-me de lhe acariciar as penas, sentado ao pé dela, então já coberta com o pudor que se reserva para os mortos. Fingi que a reconhecia quando me pediram que a visse, mas fechei os olhos. Toquei-lhe depois no rosto com as mãos. Isso bastou. Em tempos fui cego e tenho um tacto invulgar. Guardo a memória de mil formas entre as mãos e infinitas superfícies deixaram lembrança na ponta dos meus dedos. Tudo aconteceu poucos dias antes da evacuação. Voltei-me para o canário. O pássaro tinha ainda as possibilidades infinitas do futuro e era um bicho morno. Andava com ele no bolso do impermeável. Falava-lhe de Bruma. Não direi que trocávamos recordações, mas às vezes o canário cantava. Quando fomos informados de que apenas podíamos levar um objecto de valor pessoal, não hesitei: preferi o canário. No dia da partida tirei o pássaro do bolso e mostrei-o a um dos fiscais. O homem passou num instante da estupefacção ao olhar reprovador. Percebi que se habituara a jóias, às cartas de amor, aos hologramas do costume. Nem tentei argumentar. Naqueles dias teria sido uma imprudência. Larguei o canário no ar e ele ficou por ali, enclausurado num espaço imenso, que ia preenchendo com o seu voo irregular. Eu sabia que aquele lugar seria a sua prisão e, em poucos dias, o seu túmulo, mas não me comovi. Fora na minha salvação que pensei quando resolvi tentar trazê-lo comigo. Neste cubículo não há agora um único sinal da minha presença. Às vezes, com o indicador, desenho o perfil de Bruma no vidro da vigia. A imagem dura alguns minutos, tempo suficiente para pôr o rosto a brincar com o planeta. Visto daqui, Blogaris é uma esfera sombria. A alternativa é olhar para paredes vazias, mas não me arrependo de não ter trazido uma velha fotografia. Quando escolhidos por estranhos, os objectos pessoais só servem para recordar todas as outras coisas que deixámos para trás. Vim de mãos a abanar, mas as mãos são tudo o que nunca deixei de ter. Só queria adormecer.


::: domingo, junho 8

A partir de agora dispomos da história em formato PDF para que quando os post desaparecem se possa ler a história completa. Em Blogaris vive-se de escolhas.


::: terça-feira, junho 3

XAVI

Voltei. Perante tantas adversidades passadas na Crisálida sinto um enorme enjôo. lá fora vislumbro um movimento anormal de pessoas, como bichos assustados prestes a ser abatidos. Sente-se mesmo um medo animal. Ligo o plasma mas nada, só uma imagem negra. Os intercoms também estão mudos. Parece que estou isolado. O tempo que passei a deambular pela Crisálida deve ter sido grande. Esqueceram-se de mim.
Lembro-me de orbitar num sistema de três sóis onde um Blogaris antagónico reinava imperioso face a outros vinte planetas. A superfície era quente e tenra. A população vivia em harmonia com tudo, até com o planeta, a que chamavam Grun. Era um habitante como eles. Ao fim de um ciclo fartei-me daquilo. Da solidariedade, das palmadinhas nas costas, do sorriso patético que todos espelhavam como se fossem detentores da verdade universal. Aquela que os cientistas da minha Blogaris procuram incessantemente há milhares de órbitas. A que nos poderia proteger deste maldito frio.
Ligo o fluxo iónico calorífero, retiro duas cápsulas de Crisálida e engulo-as a seco, sem esforço. Quero visitar outro sítio qualquer menos estas versões subconscientes deste planeta miserável.


::: domingo, junho 1

BERNARD

Não foi esta a primeira vez que Bernard viu um grande fogo no céu. Há muitos anos, quando a neve infinita ainda era só um temor obscuro cantado pela voz partida da avó Betty, ele olhou para cima e viu a cauda do grande cometa. "Isto é um sinal do princípio do fim", suspirou a avó. Mas Bernard, então ainda uma criança com os bolsos cheios de caramelos e pedras, não compreendeu o que raio queria ela dizer com aquilo.


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