JEAN
Jean gostava de matar alguém agora.
Sentia um espigão enterrar-se profundamente no pé direito enquanto o arrastava pela neve, o braço direito estava contraído de dores, a roupa grossa e pesada sufocava-a e um laço apertava-lhe o cérebro prestes a rebentar.
Dos lábios soltavam-se resmungos, gemidos e imprecações contra a neve e contra a escuridão cadente.
Algo a fez levantar o nariz para o horizonte. Dezenas de pontos negros flutuavam no fundo azul-cinza rumo ao espaço. Jean olhou-os raivosa.
Não existem princípios apoteóticos nem finais apocalípticos espumaram-lhe os lábios. Depois continuou a subir rumo ao abrigo, tão lesta quanto as dores e os 150 quilos lhe permitiam. Aqueles cobardes que fugiam em direcção a nada, estavam aterrados com o eclipse. Esperavam o fim, a destruição. Ignoravam a máxima dos antigos: Nada se perde, tudo muda.
Mas não existe princípio definitivo ou fim categórico, a água que corre da fonte para o rio, do rio para o mar, do mar para os céus, dos céus para a terra e da terra para fonte não morre ao longo de si, mas vai morrendo mil mortes que a ressuscitam. O fim que parece brotar da lâmina não é a morte mas a passagem do mar para o céu, que nos lança ao útero terroso, que nos faz jorrar do ventre, que nos lança em borbotões pelas encostas e vales em direcção ao mar.
Ou pelo menos era o que dizia o livro.